Web, fontes como serviço e outros horizontes paralelos

Há algum tempo venho pesquisando sobre aplicações tipográficas nas novas mídias. Com o lançamento das últimas versões de navegadores como o Safari 4 e o Firefox 3.5, com pleno suporte para o CSS3, o tema da tipografia na web, em particular, nunca esteve tão em pauta. Embora estejamos com, no mínimo, uns 10 anos de atraso para tratar do assunto, começamos a ver finalmente algumas fundições tipográficas interessadas em fornecer fontes para esse novo mercado em potencial.

O grande problema em questão é o modelo adotado pelos navegadores. Na tecnologia atual, passa a ser possível utilizar fontes diferentes daquelas padrões de sistema, apenas se os arquivos forem colocados em pastas públicas e vinculados no código. Isso fere as condições das licenças de uso adotadas na maior parte das fontes comerciais que, por razões óbvias, não permitem tal compartilhamento. Esse fato faz com que, utilizando esse método, os desenvolvedores e web designers profissionais acabem limitados às fontes open source. Embora já vejamos algumas poucas famílias tipográficas de boa qualidade disponibilizadas nesse modelo, o fato é uma grande parte delas também são bastante carentes de rigor técnico. Acrescente ainda o fato de que esse universo não apresenta tanta variedade formal. Diferente de outros tipos de software, na tipografia um importante valor agregado costuma ser sua capacidade de diferenciar um projeto em relação aos demais. Como a particularidade visual é um atributo desejável em grande parte dos projetos de design, não será de se estranhar se, em pouco tempo, as fontes livres estejam tão banalizadas quanto a Verdana e a Georgia estão hoje.

Foi com o intuito de ajudar na superaração essas limitações que estabeleci recentemente uma parceria com o Typekit. Trata-se de um serviço em versão beta, desenvolvido pela empresa californiana Small Bach Inc., fundada por ex-funcionários do Google. Inserindo uma única linha de código javascript e simples marcadores CSS no código fonte, já é possível utilizar hoje uma ampla gama de fontes em sites comerciais ou pessoais por uma pequena anuidade (bem menor que aquela que seus clientes pagam ao servidor). Com um sistema sofisticado, o Typekit tem ainda a vantagem de solucionar alguns dos problemas de compatibilidade de formatos entre diferentes navegadores, sem a necessidade de manipular arquivos ou de fazer maiores malabarismos no código.

O Typekit conta ainda com uma comunidade/fórum colaborativo, com perguntas, idéias, problemas mais freqüentes e pronta resposta dos desenvolvedores.

Um teste que fiz recentemente pode ser visto aqui. Nele utilizo algumas de minhas fontes disponíveis para o uso através desse serviço, compatível com as versões mais recentes do Firefox, Safari e Internet Explorer.

Outro serviço promissor é o Fontdeck, desenvolvido pelas empresas Clearleft e OmniTi. Este, entretanto, ainda está em fase de testes privados, com previsão de lançamento para os próximos meses.

Desde que estabeleci uma parceria comercial com a norte-americana Ascender Corporation, também venho acompanhando de perto seus esforços para solucionar as limitações presentes no que diz respeito à tipografia na web. A Ascender, que sempre esteve envolvida som serviços tipográficos para empresas de tecnologia como Microsoft, Google e RedHat, é outro importante ator nessa equação e já oferece seu catálogo de fontes para licenças voltadas para esse tipo de uso, fornecendo o novo formato EOT Lite. O maior problema é que esse formato, atualmente, só é compatível com o Internet Explorer e não tem apresentando muito interesse por parte dos desenvolvedores dos outros navegadores. A partir daí já podemos tirar algumas conclusões.

Finalmente, outra proposta bastante promissora para o futuro é o novo formato WOFF, ainda em implementação. Trata-se de uma proposição em conjunto de Jonathan Kew (Mozilla), Tal Leming (TypeSupply) e Erik van Blokland (Letterror) para estabelecer um novo padrão para a tipografia na web. Nessa podemos apostar. Mas certamente ainda levará tempo até que ele seja plenamente difundido e implementado nos diferentes navegadores.

Deixando o tema da web um pouco de lado e pensando na tipografia para diferentes mídias, recentemente encontrei essa generosa palestra do designer Steve Matteson, em que fala sobre as fontes desenvolvidas para o Xbox e outros dispositivos. Uma hora de puro aprendizado sobre como a atividade do design de tipos pode ir muito além das fontes em catálogo. Divirtam-se.

Sobre o autor

Ricardo Esteves nasceu em 1980, na cidade de Vitória, ES. É graduado em Desenho Industrial / Programação Visual pela UFES e mestre em Design pela ESDI/UERJ. Trabalha com design de tipos, distribui fontes pela sua fundidora independente Outras Fontes e por meio de revendedores como MyFonts, Fonts.com, Linotype e AscenderFonts.


  1. Fabio Haag on quinta-feira 24, 2009

    Grande Ricardo!

    Ótimo artigo. Um excelente resumo, prático e informativo.

    Gostaria de ver alguns webdesigners comentando…

  2. ricardo.esteves on quinta-feira 24, 2009

    É verdade, Fábio. No fim das contas quem vai decidir o que vai e o que não vai pegar são os web designers. Por isso é que os testes em diferentes navegadores e sistemas são importantes e, principalmente, saber a opinião de quem lida com essas questões no dia-a-dia.

    Para os web designers eu recomendo testar o máximo de soluções possíveis. Todas elas são novas, então só a prática em projetos vai dizer o que realmente funciona.

  3. billybacon on quinta-feira 24, 2009

    muito interessante, ricardo!…
    obrigado pela informação e pela cortesia do vídeo do steve matteson…

  4. Rafael Neder on quinta-feira 24, 2009

    Para a indústria dos browsers adotar um desses padrões é questão de tempo tanto que a discussão entre as typefoundries está intensa. Na prática para os desenvolvedores (designers de interface, programadores, etc.) é muito prematuro apostar em algum desses modelos. Primeiro porque não são tecnologias universais e o esforço necessário para implantação não seria compensado. Segundo porque para as typefoundries existem questões de copyright pendentes. Isso claro sem contar inúmeras variáveis como monopólios, firewalls, etc.

  5. ricardo.esteves on quinta-feira 24, 2009

    É verdade, Neder. Nenhuma mudança é fácil e só o tempo vai dizer o que de fato irá funcionar. E é bem provável que não exista uma resposta única para isso. Pelo exemplo da indústria de software, sabemos que várias soluções costumam funcionar em paralelo até que exista um consenso de unificação. Isso muitas vezes leva anos, às vezes mais de uma década. Veja o exemplo do formato OpenType.

    Na web, a questão da compatibilidade universal é ainda mais importante, e não faltam conflitos com as questões de direito autoral e licenças de uso. Enquanto isso, os designers tiram proveito do melhor que as possibilidades atuais podem fornecer. Como designer de tipos, estou tendendo a achar que os serviços como o Typekit resolverão muita coisa para curto prazo.

    A proposta do formato WOFF tem tido o apoio de muitas das mais respeitadas foundries e empresas de software. Quando implementado, tem tudo para se tornar um standard. Mas a estimativa é isso leve uns 5 anos até que seja padrão em todos os browsers. Essa data é um trabalho de futurologia que alguns tem feito, baseado no ritmo de atualização dos browsers.

  6. [...] mais informações sobre as novas possibilidades de aplicação tipográficas na Web, recomendo a leitura do texto que escrevi há pouco tempo atrás para o site Tipos do [...]