Quando chega aquele briefing “projeto gráfico para crianças”, sempre vem a dúvida: qual fonte usar? Letreiramento, como nos quadrinhos, é sempre uma opção legal, mas só fica bom com prazos folgados. Pra fugir dos manjadíssimos estilos Balônicos, Sem-serifa Cômica e da tal pegada fun (?), resolvi eu mesmo criar uma fonte para crianças: um desenho esperto, alegre mas sem ser bobo. Crianças legais são assim. O resultado foi aplicado na nova embalagem do Choco Krispis da Kellogg´s.

O projeto incial era apenas o redesenho da embalagem do Choco Krispis. Só o prazer de fazer um “lifting” no elefante Melvin® já valeria o mês de alocação exclusiva no projeto. O objetivo principal era deixá-lo com uma cara mais ativa, tipo o irmão mais velho, o capitão do time da escolinha de futebol, ou o amigo atleta da garotada.
O projeto não disponibilizou orçamento para compra de uma boa licença de fonte – a House Industries seria uma ótima escolha – e, acreditem, esse tipo de situação é comum até em projetos grandes como esse. Conforme o texto foi sendo definido pelo redator, e por uma total falta de boas alternativas tipográficas , eu fui aos poucos desenhando as letras necessárias para compor as frases nas chamadas da embalagem, inspirado no desenho do logotipo. Ao final de duas semanas eu já tinha um set latino mínimo desenhado, então decidi fazer o arquivo de fonte. Foi uma ótima experiência.
Quem quiser ver o specimen da fonte em PDF, vai reparar que as letras foram desenhadas de forma individual, sem fazer os padrões de desdobramento de letras: E que vira F, B que vira P, etc. Ela funcionou em corpo 8 na embalagem, e nas tabelas nutricionais a palavra Choco Krispis® escrita com a Ticotico substituiu a marca. Sensação de dever cumprido.
A Ticotico foi usada mas ainda está numa versão beta. Penso em colocar alguns features Open Type para melhorar a simulação de letreiramento. Existem algumas discussões sobre interpretação de letras por pessoas disléxicas, que eu venho acompanhando desde a criação do arquivo de fonte. Provavelmente essa discussão vai trazer alguns ajustes e redesenhos nas letras. A dislexia atinge muitas pessoas no nosso país, inclusive adultos, principalmente por não ser identificada na infância.
Como o cliente não manifestou interesse em obter uma versão final da fonte, é bem possível que a Ticotico seja finalizada e colocada à venda pelo site do Crimes Tipográficos, ainda em 2010. Tudo isso está no plano das ideias – e o prazo, a perder de vista.
*** A fonte Ticotico e a embalagem do Choco Krispis foram desenvolvidas na Tátil Design, com Direção de Criação da Roberta Gamboa. O Raphael Abreu foi Gerente do projeto, e o Felipe Castro fez toda a parte de Estratégia e Redação.
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Sensacional, Pedrão! Muito bom o trabalho, tanto a embalagem como a fonte!
Realmente ela está com uma cara bacana, de criança inteligente! hehehehe
Achei também muito interessante o lance da tipografia para disléxicos. Como funciona isso? Muda o desenho, o kerning…como é? De repente é uma boa idéia para um artigo futuro.
Parabéns e grande abraço!
Fala Pedro!
Uma curiosidade:
Se “o projeto não disponibilizou orçamento para compra de uma boa licença de fonte” então esse trabalho todo que você fez custou pra Tátil MENOS do que “uma boa licensa de fonte”?
Abs,
H.
Olá Pedro!
Belo trabalho!
Sua vontade de chegar a uma solução tipográfica de qualidade (mesmo que sem verba nem para a compra de uma fonte de varejo) é uma atitude louvável. Reflete uma ânsia do designer gráfico consciente de não se contentar com a ‘mesmice tipográfica’, e buscar algo especial e específico para o projeto. Bela atitude.
Quanto a fonte final, que está em desenvolvimento, você pode criar caracteres alternativos com variações sutis nos glifos, aproximando-se assim da escrita manual e espontânea; pode aumentar o ‘counter’ do ‘A’, criar um par the kerning positivo entre ‘OC’ mas aí eu já to sendo chato ; )
Se quiser trocar ideias comigo sobre isso em private, é só me enviar.
(Aliás, não consegui baixar o PDF)
Abraaaaaaaaaço
Vamos lá!
Thiago: o link que eu passei no texto explica bem a questã. Do pouco que eu li sobre o assunto, em alguns casos, a pessoa tem dislexia por não conseguir distinguir a diferença entre letras parecidas. Se você tratar desenhos de letras parecidos (ex. ´d´ e ´b´) de forma individual, evitando ´espelhar´ o desenho para expandir o alfabeto, contribui para que essa pessoa entenda melhor o conteúdo.
Henrique: pois é, parece que a fonte custou barato… mas quando o cliente decidiu que não tinha interesse numa fonte exclusiva – e essa foi uma decisão do tal ´cliente interno´ – o meu estudo, que foi o arquivo de fonte beta, passou a pertencer a mim mesmo. Então, no final das contas, minhas horas de trabalho nessa fase do projeto foram para o meu portfolio como designer de tipos! E já saiu da “fundição” sendo aplicada em produto pra gôndola de supermercado. Minha ideia é melhorar o desenho das letras, e finalizar o arquivo num formato OTF com alternates, pares de kerning com mais cuidado, enfim: qualidade de mercado.
Fabio: valeu mesmo pelos comentários! Você resumiu minha intenção com esse projeto. E sem essa, afinal o verdadeiro trabalho de type vai começar é agora com as “chatices”
Abrazos
Perfeito Pedro,
transformando restrições orçamentárias em oportunidades promocionais ; )
Parabéns!!
Abs,
H
Bonito projeto. Parabéns!
Roberto Marques
Legal Pedro, parabéns! A fonte parece se adequar muito bem à aplicação – cereal para crianças. Gostei da atitude “do it yourself” no projeto. Espero ver a fonte em breve no varejo.
abração
Show de bola Pedro! Já conhecia a história, mas não tinha visto a cara da “criança”. Aliás, você está se especializando em ter fontes aplicadas a grandes projetos (mesmo sem o devido reconhecimento – será que um dia as agências aprendem?).
Parabéns pelo trabalho! Com um cereal aqui, um CD ali e um refrigerante acolá a gente vai mostrando nossa cara,
um abraço
Fala Pedro!
cara, grande trabalho: tanto pelo resultado final do produto quanto pelo type – e ainda mostrou muita garra ao produzir uma solução tipográfica de qualidade em tão pouco tempo. estende aí a toda equipe meus parabéns (dá-lhe Rapha!).
legal saber do teu interesse em estudos sobre dislexia e legibilidade para crianças. caso queira se aprofundar, minha amiga Leticia Rumjanek defendeu no mestrado da esdi uma bela pesquisa a esse respeito. ela já tinha se graduado com um ótimo trabalho sobre esse assunto, tendo inclusive criado uma família tipográfica para ilustrar a pesquisa. enquanto esse material não está na rede, escreve pra ela: lerumjanek@gmail.com
abração!
Henrique, Roberto, Ricardo: muito obrigado!
Vinicius: o teu trabalho com as Tipografias Artesanais Urbanas foi uma das inspirações pra fazer a Ticotico. Acabamento refinado para o formato digital, sem perder a pegada pop(ular) de letreiro artesanal, uma tentativa de subir o nível do que eu já fiz até hoje. Ver letreiro virando fonte, e funcionando em corpo miúdo dá aquela satisfação… Valeu, rapaz.
Fabio: a questão da dislexia e o redesenho das letras da Ticotico é uma vontade minha de que a fonte traga uma função a mais pro repertório de fontes brasileiras, além do aspecto estético. Sua dica foi ótima, eu preciso mesmo fechar um prazo para esses acertos. Vamos nessa!
Olá,
Quais são as fontes utilizadas no cabeçalho do blog para escrever “tipos do brasil”?
Segue a lista de fontes.
Broxa – Gustavo Lassala
Adrenalina – Gustavo Lassala
Fiasco – Frederico Antunes
Cabulosa – Frederico Antunes
Foco – Fabio Haag
Cordale – Fabio Haag
Ninfa – Eduílson Coan
Jana Thork – Ricardo Esteves
Force – Ricardo Esteves
Adriane Text – Marconi Lima
Discord Error – Rafael Neder
Eklipse – Rafael Neder
Pixo Reto – Tony de Marco
Samba – Tony de Marco
Dendekker – Yomar Augusto
Lasagna – Yomar Augusto
Parabens, Pedro!
Adorei conhecer + seu trabalho! E do “desenho esperto” para “crianças legais” – sem subestimação. E amei o nome da fonte, afinal uma homenagem e tanto! Abraço!