Precisamos de mais fontes? Tipografia e liberdade

Essa é uma das perguntas mais recorrentes que me aparecem. Especialmente quando estou conversando sobre a atividade do design de tipos com algum designer gráfico com muitos anos de experiência. À primeira vista essa pergunta parece perfeitamente lógica. Com a quantidade de famílias tipográficas que temos disponíveis hoje, será que não existiria um limite dado pela demanda? É muito comum também observar respostas ligeiramente tecnicistas, afirmando que a tecnologia muda e precisamos de novas fontes que atendam às necessidades dadas por essas tecnologias. Alguns dão exemplos históricos de fontes feitas para jornais, para otimizar o espaço, mantendo a legibilidade. Outros falam das necessidades técnicas de fontes específicas para a leitura em telas. Todos esses argumentos são perfeitamente válidos e não discordo deles. Mas dificilmente alguém ultrapassa os argumentos técnicos para falar das necessidades de comunicação.

O próprio termo “necessidade” pode ser bastante questionável, tendo em vista que uma boa parte do que vemos na indústria, de maneira geral, parece apontar muito mais para a criação de novas necessidades a partir da solução de anteriores – o que indica um fluxo infinito e que parece fazer pouco sentido pragmático. Talvez se substituíssemos o termo “necessidade” por “desejo”, provavelmente estaríamos nos aproximando um pouco mais da natureza humana. As pessoas desejam muitas coisas, entre elas, se comunicar com outras pessoas.

Voltando à pergunta central, certa vez, lendo um artigo escrito por Cyrus Highsmith e publicado no site da TDC, encontrei uma resposta sensacional para a pergunta “Precisamos de mais fontes?”: “Sabe, eu já ouvi a mesma coisa sobre as pessoas”. Embora seja uma resposta sintética, com um certo tom de ironia, ela parece gerar uma nova questão: Qual seria o limite das necessidades ou desejos de comunicação das pessoas? Será que existe? Ouvindo alguns antigos designers suíços e alemães que usam uma família tipográfica para tudo, não é difícil perceber um certo caráter purista e ideológico. Um mesmo padrão de pensamento que, na esfera política, costuma gerar regimes totalitários.

A partir das décadas de 1980 e 1990, com a democratização dos meios de produção de novas fontes, evidentemente muito mais pessoas passaram a se aventurar nesse meio. O que antes era restrito a grandes e tradicionais corporações, hoje pode ser produzido, com o mesmo nível de qualidade, por pequenas empresas especializadas e até mesmo por designers autônomos, bastando, para isso, a dedicação necessária para alguns anos de estudo e prática.

Para os designers gráficos, a oferta de novas famílias tipográficas cresceu consideravelmente nas últimas décadas, e as opções de adequação das propostas visuais às mensagens verbais continuam se expandindo. Isso, antes de tudo, representa a liberdade de escolha. Então eu pergunto: Qual seria a vantagem de termos uma opção menor de fontes disponíveis no mercado? Zona de conforto pode rapidamente virar acomodação. Somos sempre responsáveis pelas nossas escolhas e, consequentemente, pelas mensagens visuais que emitimos.

Imagens das letras “a” retiradas dos previews de diferentes fontes no portal MyFonts.

Sobre o autor

Ricardo Esteves nasceu em 1980, na cidade de Vitória, ES. É graduado em Desenho Industrial / Programação Visual pela UFES e mestre em Design pela ESDI/UERJ. Trabalha com design de tipos, distribui fontes pela sua fundidora independente Outras Fontes e por meio de revendedores como MyFonts, Fonts.com, Linotype e AscenderFonts.


  1. Fabio Haag on quinta-feira 29, 2010

    Mandou bem o Ricardo! Ótimo artigo.

    Dando uns pitados de acréscimo: quando a pergunta do artigo surge, gosto de lembrar que a tipografia também evolui junto com a sociedade, e assim sendo, o desenho das letras nunca ficará estagnado. E como em qualquer área do design: precisamos de mais modelos de carro (design de produto)? E porque não paramos de comprar roupas novas (vestuário)?

    ‘Escritas: espelho dos homens e das sociedades’, resume tudo, como o francês Ladislas Mandel nomeou seu livro. Aliás, esse é um cara super interessante e que poucos conhecem. Ele chegou a ser o braço direito de Adrian Frutiger na Deberny & Peignot, colaborando de perto inclusive na Univers. Fica a dica, Ladislas Mandel.

  2. Fabricio Novak on quinta-feira 29, 2010

    Ricardo, muito bom o tema. Esse assunto já me veio a cabeça. Algumas vezes em conversas de bar ou até mesmo no filme da Helvetica onde o Massimo Vignelli diz que não usa mais do que 3 tipos diferentes e que se for generoso não exitem mais do que uma dúzia de boas fontes no mundo. rsrsrs

    Fábio, sua observaçao foi muito bacana e concordo plenamente.
    Acho que os estilos variam de acordo com o momento em que a sociedade se encontra. Podemos dar como exemplo a própria pixação que é puramente “cultura popular”. Talvez tenha se distorcido um pouco, mas é algo que nasce na comunidade e se desenvolve lá.

    Um ponto sobre a quantidade de familias tipográficas é que temos uma gama muito grande e isso vaie exigir um preparo um pouco mais refinado do profissional para filtrar toda essa informação. Nada que já não seja obrigação na verdade.

    Agora pensando por um outro ponto de vista.
    Com relação a eficiência da leitura de determinada familia tipográfica.
    Será que não atingimos um nível de eficiência “perfeito”? Precisamos de mais famílias que façam esse papel?
    Nessa questão estou excluindo lettering, título ou algo desse porte. Falando somente de texto corrido.

    Fica minha dúvida.

    Abs a todos.

  3. Galileo on quinta-feira 29, 2010

    Belo artigo e bela pergunta. O que me intriga tbm é pensar “o que mais pode ser criado em tipografia, depois de tudo o que já foi criado?”
    E é impressionante que, de tempos em tempos, surge uma novidade, uma inovação no estilo ou nos detalhes. E arrisco dizer que surgem fontes surpreendentes com até mais frequência do que se poderia imaginar, ao pensar na qtde que já existe.

  4. Uriá Fassina on quinta-feira 29, 2010

    Também gostei do artigo e como o Haag disse, só o título do livro do Mandel já esclarece muita coisa sobre esta questão.

    Mas faço uma ressalva em um ponto: existe realmente, também na tipografia, a questão industrial, comercial, do “vender, vender, verder… mais, mais e mais” que vemos diariamente nos apelos dos modelos novos de carros, de cuecas, de águas com saborzinho pêra. Mas — pura ingenuidade minha ou não — acredito que o universo do design de tipos transcende um pouco isso.

    Muitos de nós não estão interessados na parte comercial da tipografia. Muitos criam tipos simplesmente para servir de meio para uma comunicação específica, para se expressar ou para dizerem que conseguem! Assim como em todas as outras expressões visuais humanas, veremos na tipografia sempre o reflexo (Mandel!) da sociedade.

  5. ricardo.esteves on quinta-feira 29, 2010

    Olá Uriá,

    Acho que podemos encarar de várias maneiras a mesma questão. É claro que o mercado influencia, especialmente para quem já está inserido nele. Mas sem isso, creio que a maior parte das fontes de boa qualidade simplesmente deixariam de ser produzidas. É um aspecto que permeia toda produção comercial, não só no universo tipográfico. O interessante da produção e comercialização de novas fontes é que, com a “democratização” dos meios de produção, se torna um mercado aberto às mais diferentes propostas estéticas. No mercado de carros, roupas… enfim, produtos físicos, o investimento operacional para se inserir e se sustentar na indústria é muito maior. É diferente de poder produzir e distribuir tendo apenas uma cabeça, um computador, uma impressora e umas licenças de software, percebe? Por isso que fontes são mais baratas que carros. :D

  6. Uriá Fassina on quinta-feira 29, 2010

    Opa! Beleza Ricardo? Entendi seu ponto e concordo plenamente. Seu comentário acho que até ajudou a esclarecer o que eu queria dizer: não é só a indústria que motiva a produção de fontes, apesar de ter um papel central.

    Não seria bacana poder fabricar um carro em casa? Pra fazer uma calça jeans já seria um trampo foda! Hauahuahauahu. Ainda bem que o digital nos abriu esta porta. E é exatamente este “mercado aberto às mais diferentes propostas estéticas” que vc bem lembrou, que tanto me encanta!

  7. Paulo Silva on quinta-feira 29, 2010

    @ricardoesteves vale a pena salientar que as licenças do Fontforge, Xgridfit e Inkscape são livres, e conseguem contribuir muito mais fortemente com a democratização do design de tipos de letra.
    Outro dia li um artigo, que não me lembro se era da Ellen Lupton, a dizer que quanto mais tipos existem, mais precisamos de tipos diferentes ou específicos.

  8. Paulo Silva on quinta-feira 29, 2010

    @UriáFassina – há quem fabrique carros em casa: http://blog.makezine.com/archive/2008/08/diy_lamborghini.html

  9. Ricardo Esteves on quinta-feira 29, 2010

    Olá Paulo,

    Justamente, o Fontforge é um software livre que pode contribuir ainda mais com essa democratização. Acho que eles só precisam fazer uma interface e um processo de instalação mais amigável. Mas é uma excelente dica para quem quer começar a se aventurar nesse mundo estranho do type design.