Desenho e produção da fonte Times To Go

No começo de janeiro de 2010, o camarada Danilo Siqueira entrou em contato pedindo ajuda numa empreitada. Ele tinha desenhado caracteres caixa-alta (A-Z), no Illustrator, e queria transformar aquilo numa fonte. A fonte era para o projeto Unique Types, encabeçado pela Agência Click. Junto com o Fred Sekkel ele havia definido o conceito do projeto. Já havia produzido inclusive um vídeo de apresentação do projeto com a ajuda do Felipe Cretella e do Estudio Mellancia. Faltava o que, nas palavras do Danilo, era “converter os desenhos .ttf”.

Eu conheço o Danilo pela internet há um bom tempo, o projeto Unique Types estava no ar e parecia algo de credibilidade, –embora não estivesse claro para mim como uma fonte royalt free poderia contribuir com as crianças da AACD. A minha reação inicial, diante disso, foi dizer que topava fazer a produção da fonte e já adiantava que não era simplesmente converter os vetores do Illustrator em uma extensão de fonte digital, o buraco era mais em baixo. Pensei assim: na pior das hipóteses, eu trabalharia algumas horas nesse projeto, ajudaria um camarada, uma ação filantrópica,  poderia juntar algumas informações sobre o projeto e escrever um texto para o blog, seria uma boa oportunidade para expor um método de criação de uma fonte digital do início ao fim.

Pretendo usar esse case para trabalhar alguns conceitos técnicos que considero importantes e que vira e mexe debato com alunos e interessados no assunto. A primeira coisa que precisa ser dita: Uma fonte é um software, um arquivo com informações compiladas relativas ao desenho de curvas dos caracteres que determinam a sua reprodução nos softwares, somado a um conjunto de instruções métricas que determinam o alinhamento e o espaçamento entre palavras, entre letras, e entre linhas dos caracteres, podem conter ainda outras informações referentes à aparência dos glifos, autoria, estilo e recursos avançados, como ligaturas, swashes, automatização para facilitar tarefas, etc. Nesse sentido, uma fonte está mais perto de um software como o Word, Photoshop do que um simples desenho vetorial. Vamos ao projeto.

1ª Etapa
A primeira coisa que pedi para o Danilo foi para que ele me enviasse os arquivos que tinha desenhado no Illustrator. O Illustrator é um software para illustração vetorial, no entanto, é inadequado para desenho de fontes digitais, existem alguns softwares específicos para este fim. Eu uso o software Fontlab. O primeiro passo, portanto, era passar esses caracteres para o Fontlab, mas o que muita gente não sabe é que fazer uma ilustração é muito diferente de se desenhar uma letra.

Em uma fonte, os nós das curvas bézier precisam estar realmente bem posicionados e o traçado precisa fluir para que não cause problemas futuros, isso sem contar o fato de que o processo de importar os caracteres do Illustrator para o Fontlab muitas vezes deformam o desenho, exigindo conferência e refinamento. Resumindo, é muito mais fácil e produtivo desenhar direto no Fontlab, ele possui ferramentas adequadas para tal.

2ª Etapa
Além do desenho dos caracteres, uma das coisas importantes para se pensar ao iniciar um projeto de uma fonte digital é definir o range de glifos, ou seja, se vai ter caixa-alta, baixa, números, símbolos, pontuações, acentos (diacríticos), etc. A linha de raciocínio é simples: quanto menor o range, menor a possibilidade de uso, e quanto maior o número de glifos maior  a possibilidade de usos da fonte.

As fontes que vendo normalmente têm em torno de 400 glifos. É claro que produzir algo dessa envergadura demanda muito tempo e cuidado. Na Times To Go, em princípio, a ideia era apenas produzir os 26 caracteres desenhados pelo Danilo, mas como sei que isso limitaria muito o uso da fonte resolvi ampliar o range de glifos. Mostrei os novos desenhos para o Danilo, trocamos algumas ideias e dei continuidade nas outras etapas da empreitada. Tenho um senso de detalhamento e perfeição que me impede de entregar somente um arquivo “convertido”. É difícil explicar, talvez só quem trabalhe com isso entenda, pode-se dizer que é uma espécie de obsessão. No fim das contas, o que era para ser um arquivo de 26 glifos, acabou se tornando um arquivo com 148 glifos.

3ª Etapa
Finalizada a parte de desenho e definição dos glifos, é preciso acertar o que chamamos de métricas, ou seja, os espaços laterais do lado esquerdo e direito de cada glifo. Você deve estar se perguntando, como assim, tem que fazer isso nos 148 glifos? Sim, é uma etapa imprescindível. Quem falou que fazer uma fonte não dá trabalho? Nesse momento, as letras deixam de ser desenhos isolados e começam a ser entendidas como palavras, frases e textos. No momento que você começa a compor palavras também percebe que determinadas soluções de desenho não dão certo. Deve voltar aos vetores e arrumar pequenos detalhes. Para fazer o espaçamento gosto de fazer uso da técnica descrita por Walter Tracy, no livro Letter of Credit. Tracy indica basear os espaçamentos das letras a partir das semelhanças entre os desenhos dos caracteres, equalizando os espaços dos caracteres arredondados, retos, triangulares e os que não se enquadram nas categorias anteriores. O que normalmente faço é juntar essa teoria com o recurso de classes que o Fontlab fornece. As classes são extremamente uteis para padronizar espaços para um grupo de letras de uma vez só, de modo que você possa setar o espaço para uma letra e replicar em todas as outras do grupo.

4ª Etapa
Após o espaçamento dos caracteres, é preciso ajustar os pares críticos de glifos. Essa técnica é conhecida como Kerning. E resolve o problema que o espaçamento simples não foi capaz de resolver, ele cria espaços negativos e até mesmo positivos entre as letras. Mas por que isso? Porque existem letras com formas muito diferentes e se não for feito um bom trabalho de kerning, as palavras ficam com buracos de espaçamento. Isso parece simples, mas não é. Podemos até dizer que é um dos principais problemas das fontes gratuitas do mercado. Infelizmente estou cansado de ver os mais diversos tipos de peças gráficas com esse problema. O Fontlab fornece um bom recurso para essa tarefa de programação. Assim como nos espaçamento é preciso usar o recurso de classes para agrupar caracteres semelhantes e definir grupos de kerning. Isso facilita bastante o trabalho. A parte cansativa do kerning é que você deve aferir ele visualmente. É comum o uso de diversos tipos de pangrama para ajudar o controle do kerning e é aconselhável imprimir textos em diversos tipos de condições para avaliar não só os problemas dessa etapa como as anteriores . Pode-se perceber que o processo de desenho e produção de uma fonte é algo bem detalhado e de idas e vindas. Como diz Karen Cheng no livro Designing Type: “O design de tipos é uma atividade lenta e repetitiva; o melhor é fazer o espaçamento ao longo de vários meses –e, as vezes, ao longo de anos -, mas nunca em poucas horas”.

5ª Etapa
A última etapa consiste em ajustar, conferir as informações e gerar o arquivo da fonte digital. Não basta salvar o arquivo, uma fonte é gerada, pois é um software e suas informações/instruções são compiladas em um único arquivo. Uma das extensões mais usadas para a compilação,atualmente, é o OpenType, por ser multiplataforma, ter suporte a um número maior de glifos, entre outras coisas. Por fim, é preciso testar a fonte em diversos softwares e plataformas para ter certeza que tudo está funcionando conforme planejado.

É justo ressaltar que descrevi aqui um método resumido de desenho e produção de uma fonte digital que diz respeito a um processo único e particular, definido em alguns anos de estudo e por um profissional independente. Existem muitas empresas e profissionais que fazem uso de diversos métodos que não esses. No fim das contas, a grande alegria do type designer é ver a fonte que deu tanto trabalho em uso. E parece que nesse quesito a Times To Go está indo bem.

Sobre o autor

Gustavo Lassala é professor e designer em São Paulo, Brasil. Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie, Bacharel em Design (Programação Visual) pela USJT e Técnico em Artes Gráficas pelo SENAI Theobaldo De Nigris”. Por meio da marca BRtype (www.brtype.com), cria, produz, e comercializa fontes digitais pelo distribuidor americano MyFonts.


  1. Daniel Justi on segunda-feira 10, 2010

    Parabéns, acima de tudo, pela atitude, Lassala!
    É comum encontrar por aí projetos colaborativos, mas abraçar um projeto de fonte digital é bastante incomum, já que não é algo simples e rápido.

    Pegar um projeto nesse ponto, onde já existia um conceito definido, desenhos feitos no illustrator e nenhuma grana envolvida, é uma atitude exemplar de sua parte. Um grande abacaxi a ser descascado.

    Isso sem contar com a oportunidade de expor o processo de finalização que, mesmo de forma resumida, com certeza ajuda esclarecer as dúvidas de muita gente.

    Absssssssssssss

  2. Rafael Neder on segunda-feira 10, 2010

    Além de gostar mais da Dead History continuo sem entender como que a AACD vai “lucrar” de fato com isso. Mídia espontânea? Ok conta outra.

  3. Gerhard Schlee on segunda-feira 10, 2010

    Ótima leitura, parabéns!

    Não rola um post sobre mostrando todas as fontes que você usa no cabeçário do site? Escreve sobre o que seria a tipografia tipicamente brasileira! ;)

  4. Ricardo Esteves on segunda-feira 10, 2010

    Bom o seu texto Lassala, bem didático. As peças publicitárias também são muito bem produzidas. Tudo muito bem cuidado e bastante persuasivo.

    Mas… em relação ao “espírito” da campanha, me junto ao Neder com a pergunta que não quer calar (que não é pra vc, evidentemente): O que AACD vai ganhar com isso? Veja o exemplo do anúncio “seu site pronto em 24h” (mas, hein?). Onde a AACD entrou nessa história? Em nada. O que foi criada foi uma fonte gratuita que pode ser usada livremente. E é isso.

    Vale pela experiência de ver a diferença entre um projeto colaborativo proposto por uma agência de publicidade, de outro proposto por uma associação séria de profissionais ligados à tipografia http://www.tiposdobrasil.com/blg/?p=705, cujo objetivo era basicamente arrecadar fundos para ajudar pessoas efetivamente.

  5. André Coelho // Usagi on segunda-feira 10, 2010

    Parabéns pelo post, Lassala. Achei bem bacana. Estava ajudando um amigo meu a gerar conteudo para uma palestra, na qual o typedesign era um dos temas abordados. Bom que tirei algumas dúvidas. Só fiquei sem entender a respeito do vetor Illustrator x vetor FontLab. Se eu fizer os vetores perfeitos em AI e depois importar, eles deformam? Vou pesquisar sobre isso depois. De qualquer forma, muito bom o esclarecimento do processo.

    Abs!

  6. Rafael Neder on segunda-feira 10, 2010

    André, vou adiantar aqui pro Lassala. O Fontlab trabalha com coordenadas integrais para os nós. Já o Illustrator não. Por isso ao importar um vetor para o FontLab é podem acontecer algumas deformações. Outro problema também acontece quando os “snaps” das layers ficam ligadas. Isso pode tirar os pontos do lugar planejado. Resumindo o Illustrator é excelente, mas não foi feito para o desenho de fontes digitais. Já o Fontlab sim e é um programa muito preciso. Portanto é comum esse retrabalho quando o illustrator é usado. No caso do desenho acima acho que boa parte do problema era o desconhecimento das regras de desenho PostScript e talvez a utilização de vetores de fontes TrueType. [ ] s

  7. Gustavo Lassala on segunda-feira 10, 2010

    Valeu Justi! A ideia era essa mesmo. Fazer um trabalho honesto e contribuir para o entendimento desse tipo de trabalho que causa tanto confusão mesmo para designers gráficos experientes.

    Neder a Dead History, pelo menos para mim foi uma grande referência para esse projeto.

    Gerhard, para esse tema aconselho que você leia o artigo do Ricardo Esteves linkado aqui no blog e a própria dissertação de mestrado dele.

    Fala Ricardo, concordo com o que você diz. De qualquer modo é bom terem adotado o assunto tipografia como temática. E estamos fazendo nossa parte por aqui.

    André, creio que o Neder tenha respondido a contento. Você sempre terá problemas com esse tipo de importação. Existem alguns truques para diminuir isso, no entanto, você precisa primeiro entender alguns conceitos que acho que esse artigo da conta: http://convergencias.esart.ipcb.pt/artigo/67

  8. Ricardo Esteves on segunda-feira 10, 2010

    Gerhard,

    Lembrei que sobre esse tema do “tipicamente brasileiro”, um artigo já publicado pelo Lassala e pelo Gaudêncio Jr. levanta uma discussão bacana: http://www.gustavolassala.com/artigos/unstipos.pdf

    O capítulo 3 da minha dissertação (pág. 72 em diante) fala da produção brasileira de tipos digitais a partir de meados da década de 1980 até o ano de 2009. http://www.issuu.com/outrasfontes/docs/dissertacao

    Divirta-se. :)