Como todos sabem, é muito comum a customização de elementos tipográficos na construção de marcas, especialmente em logotipos – seja alterando um desenho tipográfico existente, seja desenhando alguns glifos do zero. Algumas empresas ainda encomendam famílias tipográficas exclusivas para compor a identidade visual. Tudo depende da natureza do projeto, do cliente, da necessidade, do orçamento, etc. O fato é que, mesmo operações que podem parecer simples à primeira vista para um designer gráfico, costumam exigir um olhar atento na construção da forma. Com muita freqüência um pequeno detalhe pode fazer uma grande diferença para a percepção. Os designers de tipos costumam ter uma certa obsessão pelo detalhe, tendo em vista que trabalhamos com partículas tão pequenas de macro sistemas. Aproveito esse espaço para mencionar um pequeno caso recente que parece servir bem para ilustrar algumas preocupações relativas à forma tipográfica nesse contexto. Preocupações essas que podem ser aplicadas tanto em construções simples, como um logotipo, quanto em sistemas mais complexos, como no projeto de fontes digitais.
Recentemente, Mauro Pinheiro, um grande designer, professor, pesquisador, tocador de bandolim e amigo meu esteve às voltas com a identidade visual da microempresa da sua esposa Laura, a Oficina Miríade, especializada em serviços bibliográficos. A marca em si é constituída por uma espécie de ligatura OM (para ser vista, não para ser lida), com forma bastante caligráfica, e uma assinatura utilizando a fonte Mrs. Eaves, da Zuzana Licko. Ele descreve o processo de criação em seu blog.
Como já fiquei devendo muitas ao Mauro ao longo dos últimos anos, quando vi o projeto da marca, dos esboços ao resultado final, falei:
“Cara, a marca está maneira, mas na versão final do símbolo tem uns probleminhas nas curvas que incomodam. O vetor perdeu um pouco em relação ao original no papel. Se quiser, passa pra cá, que é pá e bola.”
Mauro, como sempre de olho no lance, e aproveitando o meu dia de madre Tereza, rapidamente responde: “É pra já!”
Aviso aos navegantes: Normalmente não me proponho a dar uma de “cirurgião plástico” de marcas, no fim da cadeia criativa. Como citado acima, esse caso se trata de uma força para um amigo. Vale lembrar que no âmbito profissional é preciso pensar a marca desde seu conceito até a forma final, considerando as diferentes aplicações e desdobramentos. Mas não é o que tratamos aqui, neste momento.
No universo do automobilismo, costuma-se mencionar “o traçado perfeito” quando um piloto executa uma curva utilizando o caminho mais rápido, com a frenagem e aceleração certas, na hora certa. E aí está a beleza desse esporte bilionário (além das modelos enfeitando, claro). Guardando as devidas proporções, em muitos casos nos deparamos com questões semelhantes ao desenhar letras, que podem ser ainda mais enfatizadas quando suas formas são derivadas da caligrafia. O chileno Juan Pablo de Gregorio já ensaiou essa comparação há alguns anos atrás no seu divertido blog Letritas. Mas o que pode acontecer pela destreza manual do calígrafo e pela anatomia da própria mão sobre o papel utilizando uma pena, nas curvas de bézier ocorre por meio de simulação. Uma boa referência quanto à simulação caligráfica é a dissertação de mestrado do designer Fabio Lopez. Tanto Fred Smeijers (1996) quanto Gerrit Noordzij (2000) concordam que uma das diferenças fundamentais da forma tipográfica e do letreiramento para caligrafia (ou escrita manual) é que, no último caso, temos a composição feita por um único traço, enquanto na letra desenhada, para cada curva temos pelo menos dois outlines para resolver. O designer Eduardo Berliner já escreveu um artigo interessante sobre o tema da tradução das formas desenhadas no papel para as formas vetoriais. Na maioria dos casos, simular um traço de modo convincente utilizando linhas de contorno não é algo tão elementar quanto pode parecer. Mas depois de fazer isso umas cinco mil vezes, vai-se pegando a manha.
Curvas amassadas e contraste fino/grosso esquisito são algumas das coisas mais comuns que vejo em logotipos não geométricos. Nesse sentido, o projeto de fontes tipográficas costuma criar um repertório visual que auxilia também nesses casos. Muitas vezes percebe-se que há um problema formal, mas não se sabe exatamente onde. Os nós e os pontos de controle das alças vetoriais são o cinzel da conformação das letras no computador. Como no caso dos nossos antepassados puncionistas, esse processo parece mais se aproximar da escultura do que o desenho propriamente, já que é possível “moldar” a letra até que ela apresente uma forma equilibrada e atraente ao olhar.
Considerando a coerência do traço no trato das linhas de contorno – na transição do fino para o grosso – , na imagem abaixo é possível observar alguns exemplos de curvas inconsistentes à esquerda e à direita, e uma curva um pouco mais equilibrada no centro.
Não descartando os tantos outros elementos relevantes em um projeto de identidade visual, o olhar para o detalhe na marca gráfica pode fazer uma grande diferença para o todo.
A conversa entre os envolvidos nesse micro projeto terminou com um “Ah, agora sim!”.
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Belo artigo Ricardo. E os ajustes no símbolo foram fundamentais, embora eu só viesse a perceber isso depois. Tipografia realmente é uma arte do detalhe.
Quem sabe, sabe.
Mauro, a concepção original também ajudou. Como te falei, foi mais uma questão de amaciar a criança. O bom é que rendeu esse texto.
Adorei! Ótima referência.
A atenção dada aos pormenores demonstra uma grande vontade em trabalhar bem e entregar um “produto acabado” de elevada qualidade. Parabéns.
A qualidade na definição de curvas sempre passa por um olhar atento, uma experiência no traçado de letras à mão livre, na prática continuada. O texto do Ricardo apresenta com clareza a dificuldade desta transposição do desenho à lápis para a representação vetorial, onde muitos projetos tipográficos se perdem.